59ª Feira do Livro de Porto Alegre – sugestões de compras.

Hoje, finalmente, dei uma passada pela Praça da Alfândega para olhar as novidades da nossa tradicional Feira do Livro. Olhei com uma curiosa atenção os famosos “balaios” onde antes, na ânsia de aumentar a minha incipiente biblioteca eu pescava “preciosidades”, muitas das quais até hoje não li.

Atualmente, mas preocupado com a falta de espaço do que qualquer coisa, tenho um cuidado cada vez maior ao adquirir novas obras. Por isso as obras que eu vi eu ainda sequer adquiri.

A cada ano eu tenho uma curiosidade diferente. Para este ano elegi as neurociências. Em especial às relacionadas à memória e comportamento. Na prática da audiência tenho cada dia mais me deparado com testemunhos intrigantes, que sabem a fundo detalhes acerca dos contratos de trabalho de seus colegas, indo a minúcias como as datas de admissão e férias, mas não raro desconhecem completamente seus próprios dados contratuais ou outras coisas que lhes deveriam ser mais importantes, como datas de aniversário de filhos, ou casamento.

Por óbvio se tratam de depoimentos mentirosos, no entanto o Direito faz pouco caso da ciência nestes casos e muitas vezes os tribunais ultrapassam a avaliação da prova pelo juiz de primeiro grau para, com base exclusivamente na transcrição dos depoimentos, decidir contrariamente àquele que fez a coleta da prova.

Neste quadro as obras que mais me chamaram a atenção não foram novidades da feira, mas duas publicações da Editora Artmed. Memória, de Ivan Izquierdo (imagem ao alto) e Falsas Memórias – Fundamentos Científicos e suas Aplicações Clínicas e Jurídicas, coletânea organizada por Liliaa Milnitski Stein.

Ivan Izquierdo é um cientista que dispensa comentários, seus trabalhos sobre a memória têm alcance internacional, e me servirá como uma fundamentação para minha pesquisa na área. Já a segunda obra, de aplicação mais prática, traz diversos artigos de cientistas e juristas que se debruçaram sobre o tema.

Saindo um pouco das Neurociências, pude ver uma outra obra que me despertou interesse, trata-se de uma publicação da Editora da UNISINOS, e portanto menos comercial, que é o livro Ética e Direitos Humanos de Carlos Santiago Nino. Nino é um autor argentido da Filosofia do Direito, muito citado, inclusive, pelos autores europeus da Teoria da Argumentação Jurídica, como Manuel Atienza, o que já lhe credencia para, pelo menos, me atiçar a curiosidade.

Quem se atrever a comprar alguma das obras, por favor não deixem de comentar aqui, uma vez que são temas que pouco estudados, nada obstante de aplicação prática amplíssima.

Aproveite para ver outros livros do Ivan Izquierdo sobre memória na Livraria Cultura.

Estabilidade é o que eles querem

Clube do Comércio e futuro Centro Cultural da Caixa by Noize
Clube do Comércio e futuro Centro Cultural da Caixa by Noize

Aproveitando minha primeira semana de férias – que vou utilizar para colocar meus trabalhos do mestrado e saúde em dia – estive hoje no Centro de Porto Alegre (atualmente é perfeitamente possível viver na cidade sem nunca ir ao seu Centro, principalmente para quem ter carro).

Meu trajeto foi bem curto: desci da lotação quase na Esquina Democrática, percorri a Rua da Praia até a Praça da Alfândega e, um pouco adiante, peguei outra lotação.

Pude ver uma certa revitalização do Centro. Algumas lojas novas, livrarias bem decoradas, mas também muitas e decadentes lojas de 1,99.

No entanto uma coisa me surpreendeu bastante, e este é o tema do meu artigo: a decadência da Banca de Revistas Vera Cruz. A Banca Vera Cruz, que ostenta como ano de inauguração 1878, remonta memórias de minha infância e adolescência. Sempre gostei muito de ler e, naquela época, devorava histórias em quadrinhos.

Assim quando ía com minha mãe no Centro era comum passarmos pela centenária banca onde, além do meu objeto de desejo, eu podia vislumbrar jornais de todo o país e de várias partes do mundo, em grande quantidade, todos expostos e sendo consumidos com voracidade pelas pessoas que passavam apressadas indo e voltando dos escritórios situados no então efervescente Centro da Capital Gaúcha.

Pois hoje quando passei pela frente da mesma banca praticamente não a reconheci: as mesas de exposição de periódicos, que ficavam na rua ocupando quase que três vezes as dimensões da banca não existiam mais e mesmo a sua parte interna não se destina inteiramente à venda de jornais e revistas, sendo ocupada por duas geladeiras para venda de água e refrigerantes.

Mas de tudo isso o que mais me surpreendeu foi o anúncio, quase como que em busca de salvação, de jornais e apostilas de concursos. Caminhando um pouco mais passei por uma outra banca de jornais, mais nova, nessa me dei ao trabalho de contar: havia sete publicações distintas anunciando concursos públicos em diversos estados do país.

Recordei a minha fase de concursos, logo após a aprovação no vestibular, quando então, em busca de um trabalho estável eu buscava em publicações semelhantes – então não tão abundantes – uma colocação. Acabei passando logo, em um concurso para a Justiça do Trabalho, onde, após mais dois outros concursos, continuo trabalhando. Francamente não sei o que estaria fazendo se não fosse magistrado, no entanto tenho certeza que dificilmente me submeteria ao trabalho subordinado, principalmente em decorrência de minha personalidade.

Acredito que, em momentos como o atual, em que empresas realizam despedidas coletivas ao menor sinal de redução de sua lucratividade, muitas pessoas qualificadas, que seriam preciosas para o desenvolvimento de uma empresa, acabam pensando como eu e buscando colocações às vezes até mais modestas, mas que lhes assegurem uma coisa preciosa: a possibilidade de saber que no próximo mês terão um emprego e uma renda.

Por isso defendo e sempre defenderei a estabilidade e a garantia de emprego e não consigo entender aqueles que lhe são contrários. Se para as empresas, de forma individual e egoísta, a estabilidade é prejudicial, ela é benéfica para a sociedade como um todo, na medida em que, impedindo os trabalhadores de perderem sua fonte de sustento, lhes assegura a liberdade de se endividar e consumir, o que é muito saudável para a economia do país.

A foto acima e muitas outras de prédios antigos de Porto Alegre, foram tiradas por Noize.

Veja mais sobre o Centro de Porto Alegre na Wikipédia.