Olimpíadas 2016

O texto abaixo é de meu colega, Juiz Titular em Caxias do Sul, Rui Ferreira dos Santos.

OLIMPÍADAS 2016???

E que venham os castelhanos!

Há muita celeuma a respeito da realização das Olimpíadas – e da própria Copa do Mundo – no Brasil. Melhor seria na Argentina, no Chile, segundo alguns menos otimistas, notadamente diante de tanto flagelo à que se submete a esmagadora maioria da população brasileira, a começar pelo sistema de saúde pública – quase inexistente -, o desemprego, o subemprego, regiões com trabalho em regime próximo ao escravo, o analfabetismo – como desnudado pelo último estudo, por amostragem, do IBGE, realizado em 2008 -, o saneamento básico, o acesso à educação, a falta de moradia, a desigualdade social, o latifúndio improdutivo e por aí afora.

O fato é que eventos dessa magnitude, com a presença de povos de todos os cantos do planeta, alavancam todos os setores produtivos do país, desde o turismo – que não ficaria restrito ao período do evento, pois nossas belezas naturais correriam o mundo – à indústria, à construção civil e a todo tipo de empreendimento, fomentando investimentos de toda ordem. E os gastos bilionários em estádios, centros de treinamentos, que ficariam às moscas tão logo terminassem os jogos? È uma questão de planejamento estratégico, de projeção no tempo para assegurar a manutenção desses centros na formação de atletas do futuro, na formação, por excelência, de cidadãos brasileiros, gênese de uma sociedade solidária e com responsabilidades sociais, com o primado da ética e da seriedade na formação da cidadania. Sonho? Utopia? Ledo engano?

Penso que não. Não queremos um país-futuro para um futuro que nunca virá. É necessário que façamos o futuro agora, já. E essas duas oportunidades, numa mesma fornada do presente, não podem passar em vão. Isso não se repetirá, por certo, nos próximos 200 anos. É hora de arregaçar as mangas, sempre com os pés no chão e os olhos no futuro-presente. Mas é preciso trabalho, muito trabalho, e trabalho sério.

Temos atletas olímpicos por acaso, por gosto próprio, por paixão e esforço próprios, pois a União, os Estados e os Municípios os ignoram de forma absoluta. Os poderes constituídos nada fazem e a sociedade civil ‘organizada’ os desconhece por completo. E, ainda assim, com todo esse desestímulo, nossos atletas olímpicos teimam em despontar aqui e ali, insistem em sobreviver nesse ‘oásis’ do descaso, emergem do nada institucional e nos dão medalhas olímpicas, que são comemoradas como troféus nos palácios pelos governantes de plantão, que discursam, fazem promessas e no ano seguinte, no mês seguinte, se esvai, como se esvaem as palavras ditas ao vento, e retornam, quatro anos depois, na próxima olimpíada, na próxima medalha, com o próximo governante de plantão. CHEGA desse descaso, dessa demagogia com os atletas e com o povo brasileiro. Nossos atletas olímpicos lembram nosso povo, sobrevivem do nada, do descaso, no esquecimento absoluto, cuja lembrança vem à tona tão só e unicamente à cada olimpíada, na hora do pódio, à cada eleição, na hora do voto.

Que essa olimpíada nos acorde como cidadãos. Proponho uma cruzada nacional a favor da ética (na política? Seria pedir demais)  e seriedade na aplicação dos recursos públicos, na transparência, na fiscalização por todos, do operário ao Ministério Público. Mais do que isso, na asseguração, de uma vez por todas, de prioridade na formação de atletas, em centros específicos com esse objetivo, na transformação de cada escola, pública ou privada, em microcentros de atletismo, com engajamento sem precedentes do Estado – em todos os seus níveis – da sociedade civil organizada, da escola, dos educadores em geral e do professor de educação física em particular. E não apenas com o propósito de participação na olimpíada de 2016 – pretexto para esse pontapé inicial do futuro-presente de nossos atletas -, mas como um marco, o nascedouro de um gigante do esporte mundial. E que isso se estenda a outras searas, como na educação, na saúde, no saneamento básico, na moradia….e deixemos de ser, também nessas áreas, campeões mundiais ao reverso.

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Publicado por Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo é Juiz do Trabalho e master em Teoria da Argumentação Jurídica pela Universidade de Alicante, Espanha. Titular da 5a Vara do Trabalho de Porto Alegre/RS.

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1 comentário

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  1. Rio 2016

    Hoje vamos sediar uma olimpíada com algumas novas modalidades, o pega ladrão do congresso, a corrida com dólares na cueca, e o tiro ao alvo nos helicópteros da policia militar, os alojamentos para algumas delegações já estão prontos, vai ser nas casas de barro no nordeste e terá também uma alimentação balanceada tipica da população local, agua salobra, arroz, feijão e farinha de mandioca, já o atletismo tem uma estrutura de primeiro mundo, o alojamento vai ser nas palafitas do estado de são paulo, o boxe, judo e karatê as competições vão ocorrer nas saídas dos estádios de futebol, já as corridas vão funcionar em esquema de rodizio e em alguns trechos terão que pagar pedágio e na natação o tiete vai ser o palco de varias modalidades principalmente no nado sincronizado.

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