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Não diga não.

nao pula

Vou falar sobre a crise institucional, mas por outro ponto-de-vista. Ultimamente tenho estudado bastante Psicologia, Neurociência e outras disciplinas relacionadas ao comportamento humano, em especial para as minhas aulas de Interrogatório e Negociação.

Pois bem, todos sabemos que o partido da nossa presidente, que está no poder há mais de 13 anos, se valeu, nas campanhas eleitorais de excelentes profissionais de marketing, também chamados de marqueteiros, o que foi até exposto durante o julgamento da Ação do Mensalão. No entanto, surpreendentemente, parece que, de uma hora para a outra, a cúpula do partido simplesmente ficou burra.

Exemplo disso é o principal grito de ordem utilizado por quem defende a manutenção da presidente no poder: “Não vai ter golpe”.

Ora qualquer manual de Psicologia Infantil dirá que somos, sob certos aspectos, surdos para a palavra “não”.

Por exemplo, se uma criança está em uma situação perigosa, como sobre um muro, ou em uma janela, não devemos lhe dizer “não pula o muro” ou “não se mexa”, pelo contrário, devemos dar ordens positivas do tipo “fique onde está” ou “venha para cá”. Isso é válido também em situações de conflito com criminosos, quando se deve evitar ao máximo utilizar a palavra “não”, sob o risco de lhes despertar uma sensação negativa ou de rejeição.

Em simulações de negociação eu uso um exercício muito simples, que é o “não diga não”, ou seja os alunos tem que cumprir determinada tarefa, como a realização de um determinado negócio, sem ceder além dos seus limites, mas, igualmente, sem dizer não.

Acredito que alguma palavra de ordem do tipo: “Estabilidade já!” ou coisa do gênero tivesse um efeito muito mais positivo, para todos.

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Suicídio no trabalho.

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Suicídio nunca foi um tema central nas minhas investigações. Todavia, volta e meia, me deparo com ele e considero oportuno, a partir da constatação de que o recente desastre em que em torno de 150 pessoas morreram em um aparente suicídio de um piloto alemão.

O primeiro contato que tive com o tema – suicídio no trabalho – foi há não muito quando se noticiava uma epidemia na companhia telefônica francesa France Telecom que em no final dos anos 2000 registrou 25 casos em 18 meses.

Epidemia parece uma expressão correta para se denominar casos de suicídio em série. Em O Ponto da Vira, Malcolm Gladwell refere uma sequência impressionante de suicídios de jovens na Micronésia decorrentes da imitação.

Robert B. Cialdini, em seu best seller, O Poder da Persuasão, traz a teoria de David Phillips, que batizou estas epidemias de efeito Werther por conta da onda de suicídios provocada na Europa pela publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Aliás Cialdini e Phillips trazem ainda uma importante revelação, notícias de suicídio são frequentemente acompanhadas por outros suicídios, mas também pelo aumento de acidentes com mortes, o que é por eles atribuído à intenção de pessoas em por fim à própria vida, mas buscando disfarçá-lo.

A relação do suicídio com o trabalho não é casual. O sociólogo Émile Durkhein, autor de importantes obras sobre o trabalho, como A Divisão do Trabalho Social, se debruçou sobre o tema em uma obra específica – O Suicídio. Durkhein considera o suicídio uma atitude inerentemente humana, decorrente da inserção do indivíduo na sociedade.

Não tenho claro, contudo, que o suicídio seja, efetivamente, algo exclusivo do ser humano. Os encalhes coletivos de baleias, que acabam morrendo por conta disso, em minha opinião mereceriam uma maior atenção.

Cientistas sociais como Paul Ekman a cada dia parecem identificar sinais comuns dos seres humanos em relação a determinados comportamentos. Quem sabe se, futuramente, não se torne possível, a partir de determinados comportamentos, identificar a intenção de suicídio de um trabalhador ou, ainda mais importante, fatores que levem os indivíduos a pretender dar fim à própria vida e, principalmente em situações de trabalho, permitir que haja uma alteração ambiental que altere este estado mental.

Nota: Enquanto eu escrevia este artigo noticiou-se que o co-piloto alemão, Andreas Lubitz, anteriormente ao vôo havia desfeito o noivado e tinha um atestado médico que coincidia com a data em que morreu.