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Meritocracia: meus dois centavos.

mendigo

Nos últimos dias a internet foi tomada pelo compartilhamento de artigos de juízes em que se discute o que se usou chamar de meritocracia. Que é, conforme o Google:

O predomínio numa sociedade, organização, grupo, ocupação etc. daqueles que têm mais méritos (os mais trabalhadores, mais dedicados, mais bem dotados intelectualmente etc.). 

Ao que tudo indica tudo começou com o texto da juíza de Direito do Paraná Fernanda Orsomarzo que diz em seu texto:

Ralei duro para ser Juíza de Direito. Cheguei a estudar 12 horas por dia em busca da concretização do tão almejado sonho. Abdiquei de festas, passei feriados em frente aos livros, perdi momentos únicos em família. Sim, o esforço pessoal contou. Mas dizer que isso é mérito meu soa, no mínimo, hipócrita.

Em primeiro lugar, nasci branca. Faço parte de uma típica família de classe média. Estudei em escola particular, frequentei cursos de inglês e informática, tive acesso a filmes e livros. Contei com pais presentes e preocupados com a minha formação. Jamais me faltou café da manhã, almoço e jantar. Nunca me preocupei com merenda ou material escolar.

Em resposta ao depoimento da colega paranaense a juíza de Direito mineira Ludmila Lins Grilo rebateu:

Assim como Fernanda, eu ralei duro (duríssimo!) para ser juíza de direito. Era um verdadeiro sonho a ser perseguido dia após dia. Mas, ao contrário de Fernanda, não tive tantas facilidades assim. Morava no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Olaria. Não tinha vista para o Cristo Redentor, mas sim, para o Complexo do Alemão. Conservo até hoje uma pequena cicatriz na perna de um TIRO tomado dentro da escola, aos 11 anos, em Ramos. Minha mesinha de estudo ficava à beira da janela: quando começavam os tiroteios, eu precisava sair dali da linha de tiro. Pegava o livro e ia ler na cama, toda torta e com baixa visibilidade. Os olhos e a coluna sofriam, mas o espírito sempre estava em FESTA.

Muito tempo de estudo foi tomado durante minhas viagens no 621 (Penha-S.Peña), ônibus que eu pegava para a ida ao trabalho administrativo em um hospital ao pé do morro da Mangueira. Nem sempre conseguia ir sentada, muitas vezes eram 40 minutos, uma hora em pé, desconfortável, suando, sendo empurrada, com os braços doendo por ficar segurando naquele ferro acima da cabeça. Mas minhas “folhinhas” de estudo estavam à mão: não havia tempo perdido. Não havia espaço para vitimismo: minha alma estava em FESTA.

Achei muito boa e apropriada a resposta da juíza mineira e o fato de ela própria referir a sua origem humilde me parece um bom argumento de autoridade. No entanto outro juiz de Direito, desta vez o gaúcho Pio Giovani Dresch, elaborou um outro artigo, rebatendo, justamente, este tipo de argumento. Segundo ele:

Trata-se de um recurso imemorial, sempre usado na mesma proporção em que ocorre a desigualdade social: quanto maior é, mais existe e necessidade de demonstrar que a sociedade oferece mecanismos de inclusão. Pinçam-se, então, exemplos de pessoas bem sucedidas que vieram de bairros pobres e servem de exemplos vivos acerca da possibilidade de sucesso.

Não bastassem estes diálogos intestinos, debatendo a legitimidade do acesso ao cargo público através de concurso, o ex-presidente Lula, em manifestação após a sua denúncia pelo Ministério Público Federal, veio com a seguinte alegação:

Ontem eu vi eles falar dos partidos políticos, dos governos de coalisão, vocês sabem que muita gente que tem diploma universitário, que fez concurso, é analfabeto político. Cara não entende do mundo da política.

Durante muito tempo este tipo de discussão me deixava perplexo. Na minha concepção, obviamente, devemos buscar que os melhores ocupem os melhores postos em especial quando se trata de importantes cargos públicos com potencial para interferir na vida de muita gente e nos rumos da nação.

Os discursos como os dos juízes Fernanda e Pio Dresch são em si contraditórios. Eles partem do pressuposto de que aqueles que alcançaram um cargo público por mérito é porque foram privilegiados e, ainda que não o fossem, como no caso do cidadão oriundo da Restinga (bairro pobre de Porto Alegre), os demais que permaneceram na pobreza são a prova viva de que o sistema é injusto.

Em outra palavras pessoas que tinham aptidão para o estudo e o incentivo dos pais e que, por conta disso atingem seus objetivos em termos de carreira pública, não têm como serem considerados, pelos que compartilham deste pensamento, como merecedores pois, se obtiveram o resultado positivo é porque foram, de alguma forma, privilegiados.

Este é o mesmo raciocínio que considera que aqueles que se envolveram com o crime são vítimas, embora, mesmo nas regiões mais pobres do país, o número de pessoas que enveredam pelos caminhos da delinquência, é ínfimo.

Infelizmente para nós este é o pensamento que, há muito tempo, prepondera dentre os nossos intelectuais e repercute na política e nas políticas educacionais. Não temos políticas para estudantes superdotados, pois estes são privilegiados, embora nascidos em zonas pobres, e histórias de estudantes que são destaque em ciências decorrem muito mais da abnegação de seus professores, funcionários públicos concursados, do que de iniciativas do Estado, como se pode ver do caso da professora do interior de Pernambuco que coleciona título da Olimpíada de Matemática para seus alunos ou dos estudantes, também de Pernambuco, campeões em Robótica.

Enquanto ciência é vista como privilégio e o acesso à universidade e não a melhoria do ensino fundamental e médio, como política de Estado, o Brasil continuará a ser mero exportador de commodities e importador de tecnologia, mantendo o vergonhoso placar de nenhum prêmio Nobel em ciências…

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Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo é Juiz do Trabalho e master em Teoria da Argumentação Jurídica pela Universidade de Alicante, Espanha. Titular da 5a Vara do Trabalho de Porto Alegre/RS.

2 comentários em “Meritocracia: meus dois centavos.

  1. Pode deixar comentário depois de muito tempo?
    Enquanto uns forem “mais iguais” que outros, estaremos na lama, atolados.
    Não dá pra ter três (ou cinco ou oito) sistemas diferentes para uma coisa só – aposentadoria, gestão da saúde, liberação de dados públicos, só pra falar do que me ocorre bate-pronto.
    Falta muito pra gente ter uma civilização e pensamento político. E posts como este são fundamentais pra isso.
    Obrigada, querido.

  2. Não deve ser esquecido que grandes inteligências nunca ultrapassarão os portões das universidades para terem acesso ao ensino e ao conhecimento. Estúpido quem “se acha” e não entende que muitas inteligências superiores jamais acessarão o portal do saber, e isto se deve, totalmente, à exclusão que só a pobreza imprime em um ser humano.
    Graças a Deus [ao universo, ao Buda, à força superior] que, apesar da pobreza, tive acesso à educação.

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