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Santa Maria ou o Jogo da Morte

Familares se consolam. Imagem da web.

Sepultados os mortos se dará início a um longo inquérito para apurar os responsáveis pela tragédia santamariense. Com certeza muitos serão indiciados, muitos condenados pela opinião pública, mas poucos pela Justiça.

Ao final, se bem refletirmos, a única culpada pela tragédia é a nossa cultura. A cultura do “jeitinho”, a cultura do “amanhã eu faço”, a cultura do “vamos do jeito que dá”, do “o que eu vou ganhar com isso?”, do “o que eu vou perder com isso?” E, principalmente, a nossa cultura jurídico-administrativa.

A administrativa que não fiscaliza, a jurídica que não pune.

Isso permite que empresários, ao estabelecer seus custos, ponham pouco peso na segurança.

Para garantir um local com a segurança necessária para as mais de 1000 pessoas na boate Kiss seria necessário um projeto de saídas de emergência, sinalização, isolamento acústico com produtos mais caros, equipamentos anti-incêndio eficientes, treinamento de pessoal, etc.

Este investimento, contudo, dificilmente apareceria. Ou seja no caso da Boate Kiss o pessoal treinado impediria que se usasse dentro do estabelecimento equipamentos pirotécnicos; acaso ocorresse a apresentação, adequado isolamento acústico, com produtos não inflamáveis (se é que existem) não produziria o incêndio e, se ocorresse, seria rapidamente controlado pelo uso do equipamento adequado e a evacuação rápida evitaria as mortes.

Por outro lado, a “economia” neste item apenas deixa de compensar quando ocorre o pior. Agora, diante da tragédia, o que podem esperar os responsáveis?

Com certeza os empresários, que sequer têm em seu nome o negócio (a sociedade está no nome da mãe e irmã de um deles), não terão patrimônio suficiente para indenizar um cêntimo da dor que causaram aos milhares de parentes e amigos das vítimas. muito menos para arcar com despesas correspondentes a multas ou outras penalidades administrativas.

O máximo que poderemos ter, após muito tempo é um processo criminal por crime culposo e a condenação em cestas básicas.

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Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo nasceu em 1970, aprendeu a usar computador, internet e celular, mais ou menos quando estes foram inventados. É Juiz do Trabalho e trabalha em Porto Alegre/RS. Eterno curioso acerca de tudo está elaborando a sua dissertação de mestrado em Direito e Processo do Trabalho. É master pela Universidade de Alicante em Teoria da Argumentação Jurídica, gosta de Filosofia e atualmente estuda Lógica. No tempo livre entre uma audiência e uma sentença está começando a se interessar por Neurociência, tanto do comportamento (leitura corporal e detecção da mentira) quanto da memória. Em relação ao primeiro ponto defende um estudo mais acurado da Zoologia Humana, ou seja o estudo do comportamento do ser humano em comparação com o de outros animais. Faz ainda a aplicação das teorias da Escola de Harvard sobre Negociação, nas suas audiências, tendo um dos melhores números de conciliação dentre os juízes do trabalho do Rio Grande do Sul. Procura ensinar tudo o que sabe em um curso sobre Audiência que periodicamente edita junto à Faculdade IDC e em cursos de pós-graduação e preparatórios. É casado com a Ingrid, tem três gatos, um cão e seis cavalos, sendo quatro de polo, que tenta praticar aos finais de semana. Escreve, ainda, no blog Direito e Trabalho.com e ocasionalmente publica artigos em revistas e jornais.

Um comentário em “Santa Maria ou o Jogo da Morte

  1. Um dos posts mais tristes sobre o evento que já é triste.

    será que todo começo de ano a gente tem que se haver com a realidade só pra esquecer durante o carnaval? #raiosmúltiplos

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