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Ninguém que tenha um mínimo de conhecimento do Direito vai rejeitar que a atitude do motorista do Golf que atropelou dezenas de ciclistas do grupo Massa Crítica foi de, pelo menos, aceitar a possibilidade de matar um ou mais dos ciclistas vitimados, o que já é mais do que suficiente para o indiciamento por tentativa de homicídio.

Contudo não podemos passar a mão por cima da irresponsabilidade do grupo que, deliberadamente, obstruiu uma importante via para fazer a sua manifestação. Aliás na própria página do grupo eles se propõem alguns questionamentos do tipo “se é legítima a sua ocupação das vias públicas”.

Não tenho dúvidas que como protesto ou instrumento de pressão, sim, é legítima. No entanto há certos cuidados que a comunidade deveria tomar – e talvez até tomem – mas que não custa recordar. O principal, sem sombra de dúvidas, repousa na legitimidade de interromper por interromper totalmente uma via pública.

Assim como houve, no caso, o desequilíbrio de um cidadão que resolveu simplesmente arremessar seu veículo sobre as dezenas de ciclistas, o que é de todo injustificável, não parece haver por parte dos organizadores a preocupação com outras situações que podem surgir como, por exemplo, o fluxo para uma ambulância, um veículo transportando uma gestante ou mesmo um coletivo conduzindo um trabalhador que tem horário para uma entrevista de emprego.

Não são todas as pessoas que usam veículos automotores que estão meramente poluindo. Certamente muitos de nós preferiríamos estar em uma bicicleta, ou até mesmo a pé, mas a pressa da cidade grande é que nos faz nos locomovermos de um lado para o outro, o mais rápido possível.

A observância das regras de circulação para pedestres, bicicletas, motos, carros, lotações, ônibus ou caminhões é de que os mais lentos mantenham a direita, dando passagem para os mais rápidos. Na medida em que certas regras passam a ser desrespeitadas pessoas sem equilíbrio podem acreditar que estão legitimadas a agir como animais, como o motorista do Golf fez. O fato de os ciclistas terem sido as vítimas decorre do simples fato de que eram os mais suscetíveis, não sendo possível depreender quantas outras pessoas, por motivos vários, não foram por eles igualmente prejudicados no seu direito de ir e vir.