Uma palmada bem dada…*

Palmadas

Não tenho tenho filhos e tampouco opinião formada acerca de métodos de educação. Tendo a concordar com as observações do meu amigo Gravataí Merengue para quem esta discussão não se fundamenta em fatos concretos, além de se demonstrar contraditório com a visão de muitos dos defensores da abolição da palmada que são, ao mesmo tempo, a favor do aborto.

Tenho uma experiência muito mais prosaica com a criação, quase como se fossem filhos, de alguns animais domésticos. Um gato, que morreu precocemente, em decorrência de uma doença viral; durante um tempo uma cadelinha abandonada, posteriormente doada a uma pessoa com  mais espaço para a sua criação. Atualmente temos um casal de gatos castrados, irmãos de nascimento.

Sempre pratiquei pequenos castigos físicos nos animais. Nada de surras de deixá-los feridos. No entanto coisas derrubadas ou quebradas eram punidas com gritos e palmadas (normalmente mais tentadas do que desferidas, uma vez que não é fácil alcançar dois gatos em fuga pelo apartamento).

Mel Gibson

Minha esposa, pelo contrário, é avessa a este tipo de castigo. Nunca levantou a mão para os animaizinhos e, embora não me impeça, às vezes se mostra contrariada pela minha atitude.

Em verdade se bem me lembro é mais ou menos esta a divisão que Freud faz dos papéis do pai e da mãe na educação dos filhos, ele repressor, ela como responsável pelo amor, carinho e afeto. Não que eu tenha estudado Psicologia/Psiquiatria ou que me guie pelos ensinamentos do pensador alemão.

No entanto pela nossa percepção deste pequeno universo[bb], pudemos constatar que nossos animais desenvolvem, muitas vezes, mais afeição por mim do que pela minha esposa, nada obstante ela lhes dê apenas carinho e eu, em algumas oportunidades, castigos.

Para mim tal situação demonstra uma certa coerência. As pequenas agressões, em situações em que há um comportamento reprovável por parte dos animais, é visto por eles próprios (em sua reduzida, mas não inexistente, inteligência), como uma preocupação de seu dono com a sua existência.

Uma pequena agressão, com o tom de punição ou advertência, deve ser muito melhor do que a indiferença. Até mesmo porque em certas oportunidades o que levou àquilo pode ter sido, efetivamente, uma tentativa de chamar a atenção.

Acho extremamente interessante pensar sobre isso. Quanto mais que, ao menos na minha percepção, tenho constatado que ultimamente crianças e adolescentes têm cada vez menos limites e respeito, não apenas aos mais velhos, mas inclusive com seua semelhante. Isso tudo não obstante vivam em um mundo aparentemente muito mais democrático e avançado do que nossos pais ou nós mesmos e no qual há uma preocupação efetiva com técnicas e padrões de educação.

Recordo, há muito tempo, de ter assistido a algum programa ou reportagem sobre este tema (a palmadinha). Na oportunidade já se discutia o assunto e houve, inclusive, uma parte da reportagem na França, onde se praticava este tipo de castigo, sendo que havia até uma expressão para isso. Não consegui resgatar na minha memória ou na Internet este programa. No entanto acredito que a expressão, identificada igualmente através da Rede Mundial de Computadores, seja “la fessée”, em espanhol “azote” e em italiano “sculacciata” (talvez daí a origem da gíria “esculachada”, que significa humilhar a pessoa publicamente).

Na ocasião mesmo algumas crianças[bb]foram ouvidas e se manifestavam favoráveis à palmada, referindo que em algumas vezes ela era, efetivamente necessária para alguma “correção de rumo”.

Há, no entanto, também na França, assim como em toda a Europa, uma corrente contrária a fessée, como se pode ver no vídeo  abaixo (“Levez la main contre la fessée!”), que, em uma tradução minha, seria algo como “Levante a mão contra a palmadinha, que, ao seu final, diz, ainda em uma tradução livre de minha autoria: “As mãos devem proteger, não bater” (“Les mains devraient protéger pas frapper“).

Sob o ponto-de-vista jurídico e sociológico também acho bastante complicada esta abolição do castigo físico. Lesões corporais já são tipificadas penalmente e isso não significa que tenha deixado de ser praticada. Por outro lado proibir qualquer tipo de castigo físico pode deixar os pais à mercê de terceiros, nem sempre bons intérpretes das leis, para lhes dizer como educar seus filhos.

Francamente não tenho muitos conhecimentos das qualificações dos conselheiros tutelares, mas não gostaria de ter submetida a educação que eventualmente darei a meus filhos a um profissional de quem não se exige conhecimento de Pedagogia ou Direito, que interpretará ao seu alvitre se a minha relação é adequada podendo, eventualmente, me retirar provisoriamente a guarda.

Questiono, ainda que ocorra, efetivamente, um castigo mais severo. Onde a criança estará melhor abrigada, com os seus pais[bb], que buscam lhe dar uma educação adequada, ou em um abrigo de menores, onde arriscam-se misturar com usuários de drogas ou delinqüentes?

Finalizando (não que o assunto não mereça mais reflexão), gostaria apenas de propor mais uma ideia. Será que este excesso de legislação não está, em verdade, buscando substituir as cada vez menos observadas regras de etiqueta e convivência social? Não seria muito melhor se houvesse uma reprovação social, o que se poderia atingir através de campanhas educativas, por exemplo, ao constrangimento público de crianças ou o excesso no castigo físico?

Infelizmente estamos em uma época em que tudo se pretende resolver através da edição de leis ou da intervenção do Poder Judiciário, ao passo que se reclama, cada vez mais, da interferência do Estado.

* O título é uma referência a uma poesia de Clarice Lispector.

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Publicado por Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo é Juiz do Trabalho e master em Teoria da Argumentação Jurídica pela Universidade de Alicante, Espanha. Titular da 5a Vara do Trabalho de Porto Alegre/RS.

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20 comentários

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  1. Bom, eu acho, que as “famsas” palmadinhas, só ensinam as crinças, que elas podem resolver qualquer coisa com agressão e/ou palmadinhas,e aém do mais, tirar regalias, euma boa conversa oho noolho (sem grtos,apenas em tom autoritário) são o sufuciente para a criança aprender a lição, e tomar consciência do que fez.
    Ex: Duas semans sem brincar
    Uma semana sem TV
    retirar um brinquedo, e só devolver depois de um certo tempo…
    São coisas que educam sem faze com que a criança cresca com RAIVA DOS PAIS: tenho 12 anos e tenho vontade de socar meus pais, gritar com eles, fujir de casa, assaltar um banco, (rsrs) coisas do tipo.(ou coisas piores:beem piores.) isso, quando me dão palmadas, Já quando me deichamde castigo a raiva é beeem menor.Pois se eu não posso bater neles, Qual direito que eles tem de me bater.Criança, pré adolescente e adolescente também é gente. NÓS EXIGIMOS NOSSOS DIREITOS. Se você quer que seu filho te ame, e sem rescentimentos, não de palmadas. DÊ CASTIGOS(que não incluão quaisquer tipo de agressão física. Ou…Mental!). E se você não tem filhos, não dê palpites, você não sabe como é ter um filho para julgar como ele se sente, ou como ele deve ser criado. A não ser que seus pais também te dessem (ou dêem) palmadas. Obrigada por ler, e lembrem-se:

    NÓS TAMBÉM SOMOS GENTE. Se vocês podem nos bate, Nós também podemos bater em vocês. Sejam a favor da “Sem palmadas”

  2. “Uma palmada bem dada”…

    Boa tarde a todos os participantes e leitores!

    Em primeiro plano quero frizar que o ESTADO não deve interferir na liberdade da educação no lar, impedindo os pais de darem os corretivos a seus filhos, e sim, tratar de arcar primeiramente com os compromissos e necessidades sociais alarmantes que estão sendo exigidos e que ora se encontram engavetados, e já previstos nas Leis.

    “Enquanto os pais dão uma palmada (corretivo) para ensinar o caminho certo a seus filhos, e a parteira dá a primeira plamada da vida”, “o ESTADO dá uma surra de palmadas quando omite e negligencia deveres e obrigações e direitos às crianças que moram na rua usando drogas livremente e morando nesse lar da exclusão, catando lixo e comendo no lixo, onde, um verdadeiro lar social e ESTATAL fariam a diferença, e tanto, diminuindo o sofrimento e a tortura psicológica e menosprezativa”… “Quando Idosos morando na Rua do Descaso Esquina com a via Desconforto, após ter contribuido tanto para o ESTADO, com tantos impostos enquanto eram fortes e saudáveis”…; “Basta ir nos prontos socorros e constatar a situação caótica do atendimento aos humanos adultos idosos, crianças e adolescentes, que se humilham e choram clamando serem atendidos pelo ESTADO que, já recebera pelo trabalho a prestar antecipadamente, e por que não atua e impede esse tipo de tratamento desumano e desonroso ao cidadão? “Essa surra doeu e dói muito”!!! é muito pior do que uma palmada.

    Não quero dizer que o ESTADO deva permanecer omisso diante da violência doméstica e contra a dignidade pessoa humana do Direito Universal e do tratado de Salamanca. Para isto existem os códices e Legis… Mas e sim que os Legisladores e representantes do povo façam as alterações necessárias e cabíveis sem tolhir direitos e liberdades de educação pelos pais no lar, mas se reunir e studar e analisar o que de melhor poderá ser executado na criação e reformas de novas Normas sendo mais atualizada e destinada ao Século XXI e às suas tecnologias e à “Nova Geração”.

    Agindo asim o ESTADO estará contribuindo com a educação e respeitando a liberdade de cada família do conjunto cidadão nacional.

    Certa vez alguém mencionou:

    “Deus criou a região glútea sem osso, para que os pais pudessem como forma de corretivo dar uma palmada no momento exato de um ato errôneo, que se não impedido a tempo, possa futuramente levar esse filho(a) a trilhar caminhos nefastos repletos de desrespeitos, desacatos e aliar-se aos atos criminais”, esperando apenas a chamada de Ordem como remédio jurídico para residir nas prisões e presídios nacionais”.

    O que quero deixar bem claro aqui é que não concordo e jamais concordarei com as ações de certos pais violentos e sem condições de educar, e que açoitem seus filhos como forma de vingar o que lhes falou o patrão, ou pelos problemas que enfrentam, pelo desemprego, angústias e problemas pessoais, misérias e ou por quisilha (ódio e rancores), porque isto não é forma de educar, e sim de violentar! de desabafar de maneira covarde e ignorântica.

    No entanto, o que aqui defendo não é a violência doméstica ou a brutalidade de certos pais, e sim, a liberdade dos pais mediante sensatez na educação de seus filhos, e a não intromissão do ESTADO. Assim sendo, os pais poderão e deverão saber educar livremente seus pupilos, preparando pessoas conscientes para o mundo, com um pensamento crítico repleto de cordialidade e ação justa com graça e cidadania.

    Um grande abraço!

    MICASISE

  3. Tenho filhos e fui criado por pais amorosos. Levei uma única surra na minha vida e tomei uns tapas aqui e ali. Não me tornei um recalcado e nem um louco assassino. Muito pelo contrário, percebi rapidamente que meus pais me amavam e que, quando agiram “fisicamente”, nada mais desejavam do que marcar uma posição mais firme de reprovação. Levei uma surra quando fugi de casa (porque queria aventuras e ir para a casa da minha tia sem que ninguém me levasse), tinha sete anos e fui trazido de volta para casa numa joaninha da PM (O antigo fusca).

    Da mesma forma, eduquei meus filhos evitando bater e orientando. Mas, dei uma surra na minha filha quando ela roubou um objeto que não lhe pertencia – pela segunda vez – depois de tê-la orientado e mostrado que isso era errado da primeira vez. O comportamento jamais se repetiu.

    Dei uma surra no meu enteado mais velho quando ele discutiu com sua mãe e ousou erguer-lhe a mão (ele tinha apenas 10 anos). Nunca mais o fato se repetiu.

    Em minha filha mais nova nunca precisei bater. O que ela viu já serviu de lição.

    Em nenhum dos casos houve “excessos”, marcas, sangue ou outra coisa grave. Houve apenas a palmada teraupêutica que corta o mal pela raiz.

    Nenhum dos meus filhos é psicopata, rancoroso, recalcado ou traumatizado.

    A visão exagerada do “poder do reforço positivo” é um erro em que nossa sociedade vem mergulhando. Isso sim cria os monstros e os ditadores mirins. Basta ver a violência nas escolas, o desrespeito aos pais e professores e a falta generalizada de limites nos jovens.

    O próprio estatuto do menor criou a figura do “pode tudo” e transformou crianças em fascínoras intocáveis. Por isso sou contra a colocar no mesmo saco os pais que abusam de seus filhos e os pais que apenas desejam educá-los e mostrar os limites do comportamento social.

    A vida se encarregará de massacrar esses pequenos ditadores que estamos criando com essa mentalidade e a sociedade acabará se voltando contra eles, exatamente como fez após o ECA. Limites, tapinhas e palmadinhas jamais mataram alguém e jamais matarão.

  4. Olá Jorge, concordo plenamente com o artigo, acho que o estado anda invadindo muito a privacidade do cidadão, sua função é garantir a privacidade e não invadi-la, não acho que simples palmadas possam influir negativamente na vida de uma criança, o que influi negativamente é a ausencia dos pais, a alienação parental, o abandono intelectual da criança, dentre outros males silenciosos, típicos dos tempos modernos, esses sim violência.
    Acho importante também repensarmos o papel dos conselhos tutelares, que muitas vezes não cumprem efetivamente suas funções, como todo orgão tem suas falhas e deve ser repensado, fiscalizado e cobrado pela população.

  5. Discordo totalmente do método de educar pela paulada. É, na verdade, falta de argumento para convencer duma atitude adequada. E, a propósito, tenho um gato que é tratado com o maior carinho e que não tem qualquer tipo de comportamento censurável, mas quando faz alguma coisa que não quero, procuro educá-lo oferecendo-lhe, de alguma forma, alimento e afeto. Estou convicto que educação é coisa muito diferente de castigo. Agora, se o Estado não quer que os pais castiguem, que dê educação de qualidade para que as crianças não precisem de algum tipo de corretivo. Sei que é possível convencer pelo exemplo e pelo cuidado.

    1. Estimado @Guilherme,

      Respeito e agradeço pela sua opinião, mas não posso com ela concordar.

      1) Em primeiro lugar minha manifestação nada tem de apologia à educação por “pauladas”. Dar “pauladas” seria usar um instrumento contundente para agredir. O que afirmo em meu artigo é que o uso da mão, não como forma de ferir, mas de chamar a atenção para comportamentos incorretos não pode ser criminalizado.

      2) Discordo também de corrigir comportamentos inadequados, de pessoas ou animais, através de alimento. Isso é uma das causas de uma geração de obesos mal-educados que apenas demonstram a falência deste método.

      3) Finalmente a educação deve ser dada preponderamente EM CASA. Culpar o Estado pela criação errônea das crianças é simplesmente terceirizar a sua própria responsabilidade.

      1. @Jorge Araujo, Olhe, a visão de um adulto é diferente da de uma criança ou adolescente. É claro que, sim,deve ser aplicado um castigo. mas de forma que não agrida a criança(agredir no sentido de palmadas, é claro.)Nós, temos tanto direito de bater nos pais, quanto a eles de bater em nós. E isto está errado. Adultos, além de mais fortes, são os responsáveis por nós. Reconheço seu ponto de vista, mas descordo, pelo fato de que a única coisa que uma criança aprende com palmadas (além da lição aplicada), é que ela pode resolver as coisas com agresão ou “palmadas”. Veja bem: você ensinaria matemática dando tapas em seus filhos?-não. ‘então!’ É até estranho eu citar, mas vocês ja asistiram “supernanny”?
        -Pois é, se a resposta for sim, Vocês vêem crianças que chingam os pais, e até batem neles. até bebês fazem isso. Por que?-Por que os pais não souberam criar seus filhos. Pois dão palmadas. Isso, afeta o subcosciente de qualquer criança. Ela se sente idefesa, inútil,impotente. É errado e eu concordo plenamente com a lei, ela deve ser aplicada. Caso não tenham notado, um simples olhar, e um papo sério, com voz autoritária (não com gritos), e um castigo básio (como tirar algo dela por um período), resolve. Tentem isto.
        outra coisa, a criança não estabelecerá uma relação pais-e-filho honesta, pois terá MEDO de contar qualquer coisa.
        E os filhos devem RESPEITAR os pais, e não TER MEDO deles.Não bater na criança a tornará humana. Pois assim ela também não baterá nos coleguinhas nem em seus filhos, quando os tiver, nem nada do gênero
        Bem, é isso, e por favor, vejam pelo nosso ponto de vista.
        Desculpem pelo erros ortográficos, se houverem: Meu teclado é antigo e algumas letras não funcionam às vezes, espero que entendam.
        Anna Beatriz, Bloguilda “blogueirando”.

  6. Tenho certeza ABSOLUTA que eu e minha esposa temos criado muito bem nossos três filhos (como também nossos dois cachorros e dois gatos) – e, sim, com direito a “palmadinhas” de quando em quando. E eles são amorosos e educados conosco e com que os cerca.

    Mas também tenho certeza ABSOLUTA que algum Promotor ou Conselheiro Tutelar que nos visitasse tiraria a guarda de nossos próprios filhos em função não só disso como também de “abusos”, tais como andar de bicicleta sem capacete, expô-los ao perigoso contato com animais, não andar com assento elevatório no carro (meu Opala possui cintos abdominais), etc.

    Enfim, em resumo, é a política do exagero…

  7. Excelente, Jorge! Especialmente quando à questão do excesso de legislação usado para preencher a falta de educação e de ética na nossa sociedade.

    Eu apanhei quando criança e nem por isso cresci ressentida ou tive sequelas. Só os pais podem, no caso concreto, avaliar a necessidade do castigo físico.

    Aliás, minhas gatas já tomaram tapas no focinho, dica inclusive de veterinários para minar mau comportamento. E tomaram vários borrifos d’água pela mesma razão.

    As pessoas acham que ser contra essa lei absurda é ser a favor do espancamento, quando não é. Como, aliás, acham que ser a favor do direito de escolha de seguir ou não uma gravidez é ser a favor do aborto – quando também não é.

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