Blog for Choice Day

A minha grande amiga Lu Freitas, do Ladybug Brasil me deu a dica: Hoje, dia 22 de janeiro de 2008 uma série de blogueiros, do mundo todo, estão postando artigos sobre o direito de escolha das mulheres, ou seja a legalização do aborto, é o Blog for Choice Day.

A questão acerca da descriminação do aborto gera defesas apaixonadas de ambos os lados. Os defensores da prática se apegam na liberdade pessoal, enquanto os que são contrários alegam, ademais de motivos religiosos, questões de filosofia biológica, como as que dizem respeito ao início da vida.

No entanto a verdade é que sequer os biólogos conseguiram ainda identificar e definir exatamente VIDA. Organismos como os vírus podem permanecer um grande período de tempo inanimados, como meros cristais ou começar a se reproduzir, sem que se tenha idéia dos mecanismos que fazem com que isto ocorra.

Por outro lado as organizações religiosas que defendem a preservação do feto, são, via de regra, as mesmas que apenas admitem sexo para a procriação, enquanto tem nos seus quadros celibatários condenados por pedofilia, dentre outros crimes contra a liberdade sexual alheia.

A ciência evoluiu bastante e os métodos contraceptivos tem uma eficácia se não igual, muito próxima aos 100%, o que deixa uma grande interrogação acerca dos motivos de se defender que ocorra este tipo de procedimento (interrupção da gravidez) que é, igualmente, muito agressivo para a mulher.

Entretanto há fatores que conduzem a se entender que o aborto deve ser pelo menos tolerado nem que seja como um meio de se permitir que o Estado ou outras entidades civis, diante desta opção da mulher, possam tentar dissuadi-la e, acaso inviável, pelo menos que ela conte com a assistência médica mais adequada.

Não é desconhecido de ninguém que, embora vedada por lei, a opção pelo aborto prossegue sendo a de muitas mulheres, principalmente jovens que, por não poderem se valer dos meios legítimos, acabam por se submeter a intervenções praticadas por pessoas sem habilitação adequada, em locais sem as condições mínimos de higiene e segurança e sem acesso a socorro no caso de emergência médica decorrente.

De outra parte, constatações, controvertidas é verdade, como o que consta do livro Freakonomics[bb] , dão conta de que nos Estados Unidos, a contar da decisão da Suprema Corte, que admitiu a prática do aborto, os índices de violência da geração que corresponderia aos abortos legalizados foram inferiores às das precedentes, o que ilustra o fato de que filhos desejados tem menores propensões à criminalidade, o que non é vero é benne trovato.

Aliás, conforme muito bem referido pelo blogueiro Pedro Doria, as filhas de família de classe rica quando engravidam têm até endereço certo para abortar – na Barra da Tijuca no Rio – enquanto as meninas faveladas não são aceitas na rede pública e, quando muito, se fazem atender por uma vizinha, especializada em aborto com chás ou agulha de tricô. Isso sem falar das meninas das classes C e D que, ao se verem grávidas em algumas localidades do interior do país (aqui do RS, inclusive) são expulsas de casa e vão encontrar abrigo na prostituição e noutras formas de criminalidade.

Luigi Ferrajoli[bb] , célebre constitucionalista italiano, tem uma teoria bastante avançada sobre isso, referindo (a) que a proteção jurídica não deve ser dada ao nascituro (aquele que está para nascer) apenas pela expectativa de seu nascimento, ou seja de se tornar pessoa; (b) a mãe não pode ser considerada apenas um meio para fins alheios a ela, ou seja não se pode decidir além dela, desconhecendo-se sua autonomia e responsabilidade moral (in Garantismo, Una discusión sobre Derecho y democracia. trad. para o espanhol de Greppi, Andrea. Editorial Trotta: Madrid, 2006, p. 33-4).

Em decorrência do direito fundamental de liberdade de pensamento e expressão as organizações contrárias a esta opção têm o direito de se manifestar através de campanhas de esclarecimento e outras atitudes não-invasivas.

Igualmente se deve exigir do Estado que possibilite, antes dos meios para a realização de aborto, acesso aos meios para evitar a gravidez indesejada.

Todavia a opção pela interrupção da gravidez é e deverá ser sempre da mulher.

Também estão falando sobre o assunto hoje:

Já falou sobre o assunto:

Atualização: O site Freakonomics resolveu tratar também deste assunto hoje mais ou menos reproduzindo o que acima está referido sobre a sua análise do aborto.

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Publicado por Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo é Juiz do Trabalho e master em Teoria da Argumentação Jurídica pela Universidade de Alicante, Espanha. Titular da 5a Vara do Trabalho de Porto Alegre/RS.

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3 comentários

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  1. Ler teu post abriu milhões de possibilidades e referências. Sabedora de tua posição pessoal, agradeço, penhorada, a tua adesão e contribuição.
    Sabe uma história? Ano passado, por conta desta discussão, ganhei um “filho” virtual, o Cadu de Castro Alves, também blogueiro.
    E a referência à Liliana me lembrou uma conversa que tivemos, há muuuuito tempo atrás, sobre o que acontecia na rede pública. Mais: os depoimentos dos médicos que atendem a mulherada nos postos já dizem tudo – não dá tempo para fazer contracepção. É uma sinuca de bico, este país chamado Brasil.

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