novelas

O fato de me propor a acompanhar a próxima novela das oito e, por outro lado, o projeto de examinar sistemas jurídicos ficcionais, ambos com o intuito de divulgar e facilitar a apreensão do Direito, em especial para leigos, me despertaram uma grande dúvida: Por que as novelas não são um produto cultural tal como filmes ou seriados?

Os filmes, inicialmente produzidos com base em grandes obras literárias, sempre serviram de referência pelo seu conteúdo, facilmente apreensível por estar contido em uma unidade de cerca de duas horas. Nada obstante não fosse possível, quando da invenção do cinema, acessar-se com a mesma facilidade de hoje ao seu conteúdo, então o número de produções era pequena e a elite cultural os acessava avidamente no seu nascedouro.

Posteriormente os clubes de cinema permitiram que obras consideradas clássicas ou referenciais fossem reproduzidas com maior freqüência, levando, por conseguinte, seu conteúdo à popularização.

De outra parte, mais recentemente o advento da televisão permitiu que as obras fossem mais uma vez assistidas e deglutidas, aumentando ainda mais a sua penetração. Finalmente a popularização de meios baratos de armazenamento e comercialização como o VHS e atualmente o DVD, sem falar-se, ainda, na compressão facilitada pelo sistema DivX e a sua divulgação através de ferramentas P2P, viabilizaram que o filme seja uma obra tão acessível e referenciada quanto um exemplar de livro.

Os seriados televisivos, por seu turno, tomaram um caminho mais tortuoso e a sua referenciação se deve preponderantemente a dois fatores: o primeiro à fidelização de público, situação decorrente, principalmente, de sua qualidade. Assim temos seriados que até hoje merecem, em diversos canais de televisão (atualmente com a grande colaboração da TV paga), reprises, o que lhes facilita angariar cada vez mais fãs. Neste grupo temos seriados tais como Perdidos no Espaço, A Feiticeira, Jeanie é um Gênio, Jornada nas Estrelas.

O segundo fator que podemos considerar são os guias de episódios lançados por fãs e pelos autores das séries que, antes mesmo da popularização da Internet, já permitiam que se tivesse acesso aos seus conteúdos.

De outra parte de uns tempos para cá os seriados passaram a ser também vendidos em blocos, através da oferta de caixas contendo todos os seus episódios, o que, sem dúvidas, assegura aos seus produtores polpudos ganhos.

Destaca-se que, enquanto os seriados podem ser (e são) constantemente reproduzidos no curso de sua produção ou após, inclusive com ênfase especial àqueles episódios mais representativos – ademais de haver uma certa unidade em cada capítulo -, isso se torna muito difícil em se tratando de novelas, haja vista que nestas a continuidade faz parte de sua substância e o final de um capítulo se encadeia com o próximo e assim sucessivamente.

Neste esteio as novelas ficam extremamente prejudicadas. O fato de se estenderem por incontáveis meses, com situações que às vezes se arrastam por diversos capítulos, muitos espectadores não logram as acompanha linearmente, tendo que se contentar em assistir capítulos esparsos e, se tanto, através da leitura de resumos em periódicos ou revistas especializadas.

Desta forma seria extremamente dificultoso se utilizar de um episódio de novela como uma referência, uma vez que inexiste, ao menos para os comuns, uma forma de tornar acessível o produto para que seja estudado tal como proposto.

Inclusive o culto dos fãs a este produto cultural acaba se desviando de seu próprio conteúdo, restando a muitos a aquisição de produtos relacionados, tais como CDs com a trilha sonora ou acessórios de moda sutilmente (ou nem tanto) lançados através de merchandising.

Nada obstante isso há uma série de obras literárias acerca da telenovela brasileira. Basta dar uma olhada no Submarino.com.

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Publicado por Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo é Juiz do Trabalho e master em Teoria da Argumentação Jurídica pela Universidade de Alicante, Espanha. Titular da 5a Vara do Trabalho de Porto Alegre/RS.

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