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Mais um pouco sobre segurança pública

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Há alguns dias postei um artigo lacônico, em defesa da boa remuneração dos policiais. Supreendentemente um leitor sustentou uma teoria que até é admissível para certas situações, mas que entendo inconcebível para a Segurança Pública.

Não sou contra e tão pouco a favor.
O elemento fez concurso e sabe qual o seu salário. Se não concorda não faça o concurso.
Se não está satisfeito, que saia de onde está. Simples assim. E não tem este lero lero de exclusão ou inclusão social. De onde vim somente se sai trabalhando e estudando… muuuuuito. Paulo G. Muller

A questão diz respeito à necessidade urgente de os trabalhadores da segurança pública, policiais, em especial, serem muito bem remunerados.

E isso por uma situação muito simples: encarar diariamente situações de risco real, como se estivesse em uma guerra, por remunerações apenas um pouco superiores ao salário mínimo (em se tratando dos soldados e praças) é um convite senão à corrupção, já que a má-fé não se pode presumir, à ineficiência.

Para se ter uma idéia entre 1º de fevereiro de 2007 até agora apenas segundo as contas do Alexandre de Sousa, valoroso oficial da PM do Rio, já pereceram 68 policiais no Rio de Janeiro, seguramente muito mais do que o número de baixas de soldados brasileiros em igual período em uma zona de guerra: o Haiti.

E eu não quero, e creio que pouco gente queira, que o Alexandre, que certamente poderia muito bem estar trabalhando em um escritório, em uma fábrica ou em outro lugar qualquer, ganhando talvez o dobro do que atualmente, saia da Polícia Militar. Justamente pelo fato de que eu sei, e seus leitores também, que o Alexandre é um vocacionado. Ou, como os norte-americanos diriam, é alguém que faz a diferença.

O Alexandre não está na polícia por necessidade. Está porque acredita que pode fazer algo pela segurança pública no seu Estado, e por isso ele e seus colegas devem ser muito bem remunerados.

E se ele não for bem remunerado é provável, de fato, que ele resolva, daqui a pouco a sair, mas o seu lugar será sempre ocupado por alguém, menos vocacionado e, portanto, menos sensível às necessidades da segurança.

Temos que ter também professores da rede pública, profissionais de saúde, bem remunerados, mas a segurança pública é urgente!

Aliás saiba o senhor comentarista que ser oficial da Polícia Militar, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, ou nos demais estados brasileiros também exige muito estudo.

Por Jorge Alberto Araujo

Jorge Alberto Araujo é Juiz do Trabalho e master em Teoria da Argumentação Jurídica pela Universidade de Alicante, Espanha. Titular da 5a Vara do Trabalho de Porto Alegre/RS.

9 respostas em “Mais um pouco sobre segurança pública”

A minha utilização do termo “vocacionado” nada tem a ver com o dito discurso da administração referido pelo Roger. Acredito sim que há servidores (não apenas policiais) vocacionados, que se encontram em seus cargos por amor à profissão e outros, que embora não vocacionados podem ser excelentes profissionais, aí sim conforme o Roger, como em uma profissão qualquer.
Isso se aplica não apenas a policiais ou juízes, mas em todas as atividades humanas.

Quanto a vocação, esqueça essa conversa.

A policia é um trabalho técnico como qualquer outro, meu caro. Qualquer um com um desenvolvimento intelectual a altura é capaz de ser policial. Não existem “iluminados” que nasceram prontos por uma força divina. Isso é conversa da administração para sufocar o descontentamento dos policiais que não se sentem bem diante de tanta coisa errada. Como se apenas os “vocacionados” suportassem o regime de trabalho escravo a que estamos submetidos.

Como o governo não pretende investir na formação do policial, tenta convencer a sociedade de que eles estão prontos por aí, a espera da abertura do concurso para ingressar na corporação.

Polícia é mero trabalho. Um dos mais dignificantes, mas ainda é trabalho, e só! Para tanto, exige dedicação, empenho e paixão do policial. E como paixão, se não é correspondida, esfria e acaba em separação.

Esse tal de Paulo Muller é a nossa estúpida classe média de pensamento achatado, para o qual segurança pública é limpar o bairro de mendigos e menores infratores e manter a rua lotada de vigias noturnos apitando a noite.

Qume diz, no caso da segurança pública “se não está satisfeito saia”, certamente será um dos primeiros a pedir o aumento nos salários quando houver um contingente mínimo nas ruas para garantir-lhe a segurança.

Sr’s, não existe polícia barata.Devido à situação horrivel que se encontra a cidade, sempre haverá pessoas dispostas a vir para a polícia, mas por necessidade ou vocação? Argumentos como esses servem muito bem àqueles que querem que as coisas permaneçam como estão. E não estão lá grande coisa…

Prezado Doutor,

Cediço se demonstra o alcance dos mais variados desvios de conduta atinentes a Policiais Militares, mas não só a estes,como também a servidores em geral que na realidade antes de adquirida tal qualificação, lembremos, por maior que seja a obviedade, humanos são.

Ainda na esteira da obviedade, todavia, antecipando-nos a conduta desviante, mister é questionarmos sobre a origem desta conduta, e, no caso em tela, a origem da criminalidade desenhada sob a forma da corrupção.

Em diapasão diverso, e de forma resumida, seria a criminalidade inata ao ser humano, seria ela adquirida “através do meio”, ou “devida ao meio”, ou ainda, seria uma junção de hipóteses?

Apesar das diversas correntes para a questão, não me parece sensato trilhar o caminho isolado de apenas uma delas, uma vez que fatos, como os aqui comentados, acabam jogando por terra qualquer tentativa de individualização dessa origem.

Para tal, considerando que o senhor ilustrou o “post” sequinte com um livro Aristotélico, trago uma brilhante frase de Kant, que, já ao seu tempo, pregava que a causalidade dos fatos não está subordinada a nenhuma causa concreta, mas relacionada apenas à própria liberdade do homem:

“J’entends par liberté la faculté de commencer de soi-même un état dont la causalité n’est pas subordonnée à son tour, suivant la loi de la nature, à une autre cause qui la détermine quant au temps.”

Do exposto, e, considerando o pensamento Kantiano, que, em época clássica do pensar, já afirmava que a causalidade dos fatos também não se subordina às leis naturais, nem à outra causa qualquer que a determine, haja vista a latente presença da liberdade desfrutada pelo homem, chego a pensar que ele mesmo não está apto ao desfrute daquela, sendo o maior fator desviante de conduta, por mais controverso que possa parecer, a própria liberdade a ele conferida.

Por fim, fazendo uma imitação burlesca afirmaria: a liberdade que liberta uns, é a mesma liberdade que aprisiona, corrompe outros, não me parecendo se tratar de vocação para o bem ou para o mal, mas, tão somente, a liberdade do optar.

Saudações

Acredito que quem partilha esse tipo de pensamento ainda não precisou de serviços prestados pela polícia, se precisou com certeza teve a sorte de ser atendido por algum policial desses ditos “vocacionados”, e com certeza foi bem atendido etc… Suponhamos que a polícia abra, hoje, vaga para 1000 novos policiais, destes 1000 alguns 250 já são formados em curso superior, outros 250 entratam na polícia para pagar a faculdade e outros 500 são aqueles “figuras típicas da polícia”, o “cara” bronco e limitado intelectualmente. Aí questiono: Qual o tipo ideal que a polícia necessita hoje? O formado em curso superior ou o bronco? Penso que para um atendimento mais humano ao cidadão e para a utilização de técnicas policiais de maneira eficaz (redução de balas perdidas, tecnicas de abordagens mais humanas e etc) aquele “cara bronco” não é o mais indicado, só que esta é a realidade das policias no Brasil hoje, nos concursos entram policiais bons e ruins, com o surgimento de oportunidade os Bons vão trocando os baixos salários, deixam as más condições de serviço, e aquela figura típica – corrupta – permanece. Aí sim acredito que se encontre uma das causas da corrupção policial, eu disse apenas UMA das causas. Sem citar ainda a falta de efetivo, o estado hoje investe cerca de 15 mil reais para formar um soldado da PM, que em 4 ou 5 anos, este deixará a corporação.

Respeito e lhe admiro muito, porém me permito discordar desta linha de raciocínio.
Acredito que pessoalmente poderia ser melhor entendido, porque palavras escritas não tem a entonação e a contra-argumentação imediata.

“”” E isso por uma situação muito simples: encarar diariamente situações de risco real, como se estivesse em uma guerra, por remunerações apenas um pouco superiores ao salário mínimo (em se tratando dos soldados e praças) é um convite senão à corrupção, já que a má-fé não se pode presumir, à ineficiência. “””

Está certo. Agora eu entendo a razão da corrupção. Tenho uma vocação, escolho um emprego mal pago e com altos riscos e tenho a justificativa para a corrupção. Perfeito.

“”” A questão diz respeito à necessidade urgente de os trabalhadores da segurança pública, policiais, em especial, serem muito bem remunerados. “””

Não acho que a segurança(?) pública, tenha que ser especialmente bem remunerada.
Acho que o ESTUDO e INVESTIMENTO é que tem que ser priorizados para que as VOCAÇÕES ocorram em outras áreas.
Enxugar gelo não leva a nada.

“”” Aliás saiba o senhor comentarista que ser oficial da Polícia Militar, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, ou nos demais estados brasileiros também exige muito estudo.”””

Tenho familiares na BM no SUL e amigos pessoais na PM e Corpo de Bombeiros do RJ, e conheço a área por vários ângulos.

Em relação a vocação ( religião; fé; política; futebol…), não me é possível argumentar. Porque somente acredito em quem queira progredir intelectualmente, financeiramente e culturalmente. E isto envolve pensamento racional e não o que tentam(e conseguem) empurrar em mentes adentro.

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